Uma Primavera "húmida", um Verão "quente", como mandam os desejos da maioria, um Outono "temperado" e um Inverno "áspero, mas pouco frio". É assim que o almanaque "Borda d'Água" prevê que seja 2014. Será um ano bom para os "amantes das artes". Vai ser pai? O seu filho deverá ter "olhos atractivos" e "mãos esbeltas".

No que toca às condições atmosféricas, o "juízo do ano" do "Borda d'Água", que cumpre este ano 85 anos de vida, não difere do concorrente "O Seringador".

Produzido em Baguim do Monte, no concelho de Gondomar, "O Seringador" é mais dado às artes da sátira do que à agricultura, mas não resiste a prever que "de trigo, milho e cereais haverá abundância". A vindima, essa, "promete ser farta", tal como o azeite e o mel, e o "mar fornecer-nos-á pescado em barda". Haja dinheiro para os comprar – mas o almanaque não arrisca previsões nesse campo.

Diz o "Borda d'Água" que "o vermelho é a cor de eleição do ano", mas, calma, benfiquistas, porque isso traduz-se apenas num apelo ao consumo moderado de frutos vermelhos. "Os citrinos são outra categoria de frutos a ter em consideração", recomenda a publicação da lisboeta Editorial Minerva.

Célia Cadete faz o "Borda d'Água" desde 2008 – é a directora e única redactora. "Se não houver ninguém que faça, estas coisas desaparecem", afirma. Mas o almanaque tem muitos adeptos: cerca de 300 mil por cada edição anual – entre eles, o deputado comunista Bruno Dias, que o levou para o Parlamento, em Junho do ano passado. "[É] Um objecto que nos identifica um bocado como país."

Quando não está a dar aulas de Filosofia numa escola secundária de Almada, Célia Cadete recolhe informações científicas, de fontes como o Observatório Astronómico de Lisboa, que cruza com a sabedoria popular. Compila ainda datas e locais de feiras e mercados, indicações astrológicas, épocas de sementeira, fases da lua, marés, entre outro "reportório útil a toda a gente", como anuncia o almanaque na primeira página.

"Falo imenso com pessoas. As pessoas de uma certa idade pedem aos filhos para me mandar um e-mail falando de uma determinada história, telefonam-me… Vou registando isso tudo. Gosto muito de falar com pessoas idosas", diz.

Ler as luas
Não revela os segredos da previsão do tempo que vai fazer a tantos meses de distância, mas a directora do "Borda d'Água" lá diz que boa parte do truque está na "leitura das várias luas" e no "tipo de planeta que rege o ano" – em 2014, afirma, é Mercúrio, um planeta "diurno" e "masculino".

As páginas deste almanaque, que abrimos com uma faca (uma das formas de saber se está a comprar um "Borda d'Água" original e não uma versão contrafeita), são um concentrado de sabedoria popular: dos provérbios (cuidado: "bons dias em Janeiro, enganam o homem em Fevereiro") às tradições transmitidas por via oral.

É o caso das "canículas de Agosto", em destaque nesta edição do almanaque: transpõem as condições atmosféricas – vento, precipitação, temperatura e humidade – registadas nos primeiros 13 dias de Agosto para o tempo que o próximo ano há-de ter (o dia 1 resume o ano inteiro, o dia 2 corresponde a Janeiro, o dia 3 a Fevereiro e assim sucessivamente até ao dia 13, que corresponde a Dezembro). "Isso já é uma previsão. E eu tomo atenção a essas previsões."

"Ventre saliente" ou "olhos atractivos"?
Licenciada em Filosofia, Célia sabe que, para chegar ao conhecimento, duvidar é fundamental. Por isso, apesar de procurar as fontes "mais credíveis", relativiza o que publica.

Diz a brincar que, graças aos microclimas, acertam "sempre" nas condições meteorológicas. Mas há quem não perdoe ao "Borda d'Água" as previsões falhadas noutros campos: "Uma vez, um senhor telefonou-me muito escandalizado porque eu disse que as pessoas que iam nascer naquele ano iam ser feias, com o nariz comprido… Ele ia ter um filho naquele ano e ficou muito ofendido. Ora, nem todos os miúdos que nasceram [naquele ano] são feios, como é óbvio [risos]. As pessoas levam as questões muito à letra."

Os futuros pais podem estar sossegados em 2014, se acreditarem no "juízo do ano" do "Borda d'Água": "Os que nascem neste ano serão de estatura mediana com olhos pequenos e atractivos, testa larga e alta, mãos esbeltas e dedos compridos". O vaticínio d'"O Seringador" é menos animador: os rebentos terão "ventre saliente" e "nariz enorme, pencudo".

em rr.pt